Sociedade

Mensagem de 1º de Dezembro de S.A.R. Senhor D. Duarte de Bragança 2025

"A lei dos estrangeiros deve refletir o equilíbrio entre a tradição da hospitalidade e a proteção dos interesses soberanos do Estado. Portugal sempre recebeu diferentes povos e culturas, mas a experiência histórica ensina que a abertura deve ser acompanhada de prudência, responsabilidade e respeito pelas nossas normas nacionais."

30 de novembro de 2025
Mensagem de 1º de Dezembro de S.A.R. Senhor D. Duarte de Bragança 2025

Mensagem de 1º de Dezembro de S.A.R. Senhor D. Duarte de Bragança 2025

Portugueses,

reunimo-nos hoje na véspera do primeiro de dezembro para celebrar a Restauração da independência de Portugal em 1640, símbolo da nossa determinação em preservar a identidade e a soberania como povo livre.

Ao recordarmos este momento histórico, lembramos que os princípios da Restauração – a fé, a ordem, a defesa da liberdade e da soberania – permanecem essenciais na nossa convivência democrática.

Num mundo em constante mudança, é vital reafirmar esses valores, protegendo a nossa identidade e coesão social em harmonia com a participação, pluralidade e os direitos de todos.

A lei dos estrangeiros deve refletir o equilíbrio entre a tradição da hospitalidade e a proteção dos interesses soberanos do Estado.

Portugal sempre recebeu diferentes povos e culturas, mas a experiência histórica ensina que a abertura deve ser acompanhada de prudência, responsabilidade e respeito pelas nossas normas nacionais.

Num mundo marcado por migrações e ameaças complexas, esta lei deveria ser mais do que um instrumento administrativo: deveria ser também um meio de proteger a soberania e a segurança coletiva, promovendo inclusão e vigilância.

Guiados pelo espírito cristão, devemos assegurar que todos, nacionais e estrangeiros, contribuam para o bem comum, respeitando a cultura e os valores de Portugal.

Tal como os conjurados da Restauração enfrentaram os desafios do seu tempo, hoje cabe-nos garantir que a lei dos estrangeiros proteja os interesses nacionais sem perder de vista a dignidade de quem escolhe Portugal como lar, fortalecendo a unidade e a resiliência democrática da nossa sociedade.

A minha visita recente ao Bangladesh, acompanhado pela minha família, assume um significado especial. Neste momento em que muitos migrantes em Portugal enfrentam episódios de discriminação, este gesto diplomático e simbólico ajuda a recordar a profunda tradição histórica portuguesa de abertura ao mundo e de respeito pelas comunidades que connosco constroem o país.

Ao deslocar-me ao Bangladesh, reafirmo não só a valorização da diáspora que escolheu Portugal como destino, mas também o nosso compromisso moral com a dignidade humana, independentemente da origem. É um sinal claro de que aqueles que vivem e trabalham entre nós fazem parte da nossa comunidade e merecem reconhecimento, proteção e respeito.

Esta visita é um espelho do país que queremos ser.

O Portugal que sempre foi de migrantes, consciente da sua própria história, fiel à sua identidade plural e orgulhoso de estender a mão a quem o procura para viver com esperança, futuro e segurança.

Este ano foi também para a minha família e para mim uma honra regressar à Hungria e ser recebido pelas mais altas figuras do Estado no encontro que reforçou os laços históricos e culturais que unem os nossos dois povos.

Nesta visita, tivemos oportunidade de refletir sobre temas essenciais, como a importância da família, a preservação das nossas tradições e a necessidade de enfrentar de forma responsável o desafio da imigração ilegal.

Defender a legalidade e a dignidade humana não é contraditório com a abertura ao mundo. Pelo contrário, é complementar.

Tal como sublinhei na recente deslocação ao Bangladesh, Portugal tem o dever de respeitar e apoiar aqueles que escolhem o nosso país por vias legítimas, integrando-se e contribuindo para a nossa sociedade. Combater a imigração ilegal significa precisamente proteger essas comunidades, garantir justiça e assegurar que o acolhimento se faz com ordem, respeito e humanidade.

A Guerra Fria reentrou no vocabulário do dia a dia.

A ameaça nuclear paira de novo.

As ameaças à soberania e à democracia assumem formas subtis e por vezes impercetíveis.

A guerra híbrida, talvez o maior desafio à nossa capacidade de defesa coletiva.

Trata-se de um fenómeno complexo que combina métodos convencionais e não convencionais, onde a desinformação, a manipulação das redes sociais, os ataques cibernéticos e a pressão económica se cruzam com tentativas de enfraquecer a nossa coesão interna e a confiança nas instituições.

É imperativo que saibamos identificar, compreender e responder de forma prudente e determinada aos novos perigos que se colocam à nossa liberdade.

A defesa contra a guerra híbrida exige vigilância, cooperação entre instituições, educação cívica e tecnológica, bem como uma cidadania informada e ativa.

Não basta confiar na força das nossas tradições.

É preciso adaptá-las aos desafios do século XXI, sem nunca abdicar dos nossos valores essenciais.

Ao celebrarmos o primeiro de dezembro, não evocamos apenas a Restauração da independência de Portugal, mas afirmamos a dimensão global da nossa língua e dos valores que nos definem enquanto povo.

Entre esses valores, a família ocupa um lugar central.

É onde se constrói a identidade, onde se transmitem costumes, memórias e sonhos.

É também o elo fundamental que nos liga a todos os que, espalhados pelos cinco continentes, falam português e partilham da nossa história.

Com mais de 300 milhões de falantes, a lusofonia não é apenas um património linguístico: é uma comunidade viva de culturas, valores e responsabilidades.

A herança desta língua exige de nós orgulho e dever – o dever de manter vivos os laços que unem famílias, comunidades e nações, e de promover a cooperação entre todos aqueles que partilham desta tradição.

O futuro da lusofonia depende da nossa capacidade de reforçar esses vínculos através do ensino da língua, do respeito pela diversidade, do fortalecimento das relações entre países e comunidades lusófonas e, acima de tudo, da proteção da família como o berço dos cidadãos da nação.

Só assim podemos construir sociedades democráticas, justas e seguras, onde cada indivíduo encontra lugar para crescer e contribuir para o futuro.

Por essa razão, estive presente há alguns meses na quarta conferência das comunidades luso-asiáticas em Timor-Leste. Esta instituição é esquecida por muitos em Portugal, mas faz dessa ligação entre os vários povos da raiz portuguesa que referi anteriormente, que este primeiro de dezembro nos lembre de que Portugal não é apenas a sua história ou o seu território, mas também a comunidade de almas que em cada canto do mundo continuam a falar, a ensinar e a viver a língua que nos une. Neste contexto, foi com grande alegria que a minha mulher e eu tivemos a oportunidade de tornar a visitar Goa, onde fiquei encantado por reencontrar a força da memória portuguesa na população, na arquitetura e na hospitalidade.

No início do próximo ano, vamos ter eleições presidenciais.

É nesses períodos de transição que se torna legítimo refletir sobre o modelo político que melhor corresponde à identidade nacional e às aspirações do povo.

Talvez este seja o momento de revisitar com serenidade e espírito histórico a solução monárquica como fator de estabilidade, continuidade e unidade, não como recuo ao passado, mas como possibilidade de renovação ancorada numa tradição que sempre procurou colocar a nação acima das disputas partidárias.

O importante, acima de tudo, é que Portugal encontre o caminho que mais profundamente reflita a sua alma e a sua história. Foi com profunda emoção que, acompanhado pelo meu filho Dinis, fui recebido há mais de um mês por Sua Santidade, o Papa Leão XIV.

Nesta ocasião solene, transmiti ao Santo Padre os cumprimentos e votos de fidelidade da família real para o pontificado que agora se inicia, desejando que o seu ministério seja fonte de paz, esperança e renovação espiritual para todos os povos.

Tive igualmente a honra de apresentar os novos símbolos da Ordem do Arcanjo São Miguel. Símbolos que recuperaram a heráldica original, preservando a memória e a tradição que lhe estão associadas.

A ordem, fortalecida por delegações espalhadas pelo mundo, tem adquirido um papel de grande relevância, particularmente junto das comunidades do Leste europeu, que enfrentam as duras consequências da guerra entre a Rússia e a Ucrânia.

A nossa missão, mais do que nunca, é apoiar, proteger e inspirar aqueles que sofrem, reafirmando que a fé, a honra e o serviço ao próximo continuam a ser pilares essenciais da identidade portuguesa.

Ao celebrarmos a Restauração da independência, lembremos que a nossa voz ecoa em 300 milhões de lares, escolas, praças, parlamentos e sobretudo famílias.

Que saibamos honrar este património, cuidando da nossa língua, promovendo a união entre todos os que a partilham e defendendo a família como base da sociedade.

Assim, continuaremos a ser juntos protagonistas de uma história comum feita de liberdade, fraternidade, esperança e de laços comuns inquebrantáveis.

É este o compromisso em que a minha família e eu próprio estamos empenhados e comprometidos, sempre à disposição dos portugueses para servir no que for necessário e entendido como tal.

A minha família e eu desejamos a todos um santo Natal e um ano novo de 2026 abençoado por Deus.

Viva Portugal!