Montenegro e a Lenta Agonia do PSD
A história, como se costuma dizer, não perdoa os cobardes. Luís Montenegro fez a sua escolha. Portugal pagará as consequências.

Montenegro e a Lenta Agonia do PSD
Montenegro e a Lenta Agonia do PSD Os resultados da primeira volta das eleições presidenciais de 18 de janeiro de 2026 constituem um momento de inflexão na história política portuguesa. Com António José Seguro a obter 31,11% e André Ventura 23,52%, dirigindo-se ambos para uma segunda volta a 8 de fevereiro, o país assiste a um fenómeno que transcende a mera disputa por Belém que é a reconfiguração profunda do espectro político nacional e, em particular, o possível colapso estrutural do PSD enquanto força hegemónica do centro-direita.
Luís Marques Mendes obteve apenas 11,32% dos votos, que é o pior resultado de sempre de um candidato apoiado pelo PSD em eleições presidenciais. Para contextualizar a magnitude desta derrota, basta recordar que o anterior mínimo histórico pertencia a Joaquim Ferreira do Amaral, que em 2006 alcançou 34,6%. Estamos perante uma queda de mais de 23 pontos percentuais face ao pior registo anterior do espaço social-democrata.
A dispersão do voto no centro-direita foi evidente, João Cotrim Figueiredo conquistou 16% (quase o dobro do resultado da Iniciativa Liberal nas europeias de 2024), resulado que nunca teria se o candidato de Luís Montenegro fosse outro. Henrique Gouveia e Melo 12,34%, e Marques Mendes ficou relegado para um humilhante quinto lugar. Esta fragmentação não foi acidental, foi o resultado direto de uma estratégia falhada de Luís Montenegro.
A postura de Montenegro após os resultados foi reveladora, anunciou que o PSD não apoiará nenhum candidato na segunda volta, refugiando-se na "neutralidade" institucional. Esta decisão, apresentada como prudência democrática, esconde uma realidade mais prosaica: qualquer posicionamento exporia as fraturas internas do partido e colocaria em causa a sua própria liderança.
Existe uma tese, partilhada por alguns estrategistas políticos, de que deixar André Ventura vencer a presidência poderia, paradoxalmente, acabar com o chega ou então beneficiar o centro-direita tradicional a médio prazo. O raciocínio é o seguinte: uma vitória de Ventura alavancaria momentaneamente o Chega, mas simultaneamente fragilizava Montenegro de forma irreversível. Esta fragilização abriria espaço para o regresso de uma liderança reformista ao PSD e o nome que surge naturalmente é o de Pedro Passos Coelho.
Passos Coelho tem mantido uma presença discreta mas consistente no debate público, criticando a falta de ambição reformista do atual governo. Em declarações recentes, o antigo primeiro-ministro sugeriu que Montenegro governa "à António Costa", mais preocupado em evitar políticas impopulares do que em implementar as reformas estruturais que o país necessita. Uma liderança de Passos Coelho, poderia reconsolidar o PSD, engolir a IL e fragilizar ligeiramente o Chega, mas todos podiam juntos através de propostas concretas mudar realmente o País.
Os recentes números das sondagens revelam o fracasso da narrativa de Montenegro de que a "neutralidade" seria a posição mais sensata. Na prática, o eleitorado social-democrata está a migrar maciçamente para o candidato socialista, provavelmente colocando a nú aquilo que o PSD sempre foi, socialista! reforçando o PS e deixando o Chega como único representante da oposição de direita em Belém.
Recordemos também que foi um Presidente socialista, Jorge Sampaio, quem dissolveu a Assembleia da República em 2004, criando as condições para a maioria absoluta de José Sócrates em 2005. Um Presidente Seguro, estará inevitavelmente mais alinhado com os interesses do aparelho socialista. A sua eleição oferecerá ao PS um escudo presidencial até que estejam reunidas as condições para recuperar São Bento.
O que está verdadeiramente em causa nestas eleições não é apenas quem ocupará Belém, mas a configuração futura do sistema partidário português. Por falha estratégica de Luís Montenegro, corremos o risco de evoluir para um cenário bipolar,, de um lado, um PS que consolida a sua posição como único partido de governo do centro-esquerda; do outro, um Chega que emerge como única força relevante à direita do espectro.
O país enfrenta desafios estruturais enormes, desde a necessidade de revisões constitucionais profundas, passando pela reforma do Estado, da justiça e do sistema fiscal. Estas transformações requerem consensos alargados e governos reformistas com legitimidade para implementar mudanças impopulares a curto prazo em nome de benefícios a longo prazo, e para isso será desejável, um grande partido de centro-direita, e outro de direita, capazes de formar maiorias reformistas e de executar as mudanças necessárias à modernização do país.
Há uma dimensão adicional que merece análise: o posicionamento de Montenegro face às elites europeias. O líder do PSD tem-se revelado um defensor acrítico do consenso de Bruxelas, evitando qualquer fricção com as instituições comunitárias mesmo quando estas promovem políticas contrárias aos interesses nacionais. Esta postura, que alguns interpretam como "europeísmo responsável", deve também ser lida como subserviência a estruturas não eleitas democraticamente, e não tenho dúvida que as linhas vermelhas que Montenegro teima em colocar sobre o chega, são impostas por Bruxelas.
O contraste com outros líderes de centro-direita europeus é evidente. Enquanto figuras como Georgia Meloni em Itália conseguem articular uma posição de defesa dos interesses nacionais dentro do quadro europeu, Montenegro parece incapaz de qualquer assertividade que possa desagradar a Bruxelas. Esta timidez estratégica reforça a narrativa do Chega de que o PSD é parte do "sistema" e, neste ponto específico, Ventura está certo.
O PSD preferiu a cobardia do calculismo e tudo indica que vai pagar caro. Montenegro chegou ao poder sem um impulso reformista genuíno, substituindo António Costa mas governando à sua imagem, sempre mais preocupado em não arriscar do que em transformar.
A candidatura de Marques Mendes enquadrava-se perfeitamente nesta lógica de gestão tática, ou seja, apoiar um Presidente "colaborante" que não incomodasse São Bento. Mas a tática falhou estrondosamente, e agora o PSD encontra-se entre a espada e a parede. Por calculismo de curto prazo, Montenegro pode ter condenado o PSD à irrelevância a médio prazo, e aberto caminho para que o futuro político português se reduza a uma disputa permanente entre socialistas e o Chega, sem espaço para o reformismo libertário-conservador que o país tanto necessita, porque para tal acontecer eu preferia que a verdadeira disputa fosse entre um partido de centro direita e o Chega, com os partidos socialistas relegados à sua insignificância política.
A história, como se costuma dizer, não perdoa os cobardes. Luís Montenegro fez a sua escolha. Portugal pagará as consequências.


