Francesca Bria voltou a Lisboa com o discurso de sempre. A Europa é vítima, os americanos são oligarcas, Musk é uma ameaça, o jornalismo está sob ataque e só Bruxelas, claro está, poderá salvar a ordem democrática. É um guião conhecido, recitado em congressos pagos com dinheiro público, e que merece ser confrontado ponto por ponto.
Comecemos pela tese central. Francesca Bria afirma que vivemos numa oligarquia tecnológica porque um punhado de empresários americanos detém infraestrutura digital que a Europa consome. O argumento tem um problema básico de honestidade intelectual. Essas empresas não conquistaram o mercado europeu por imposição militar nem por decreto. Conquistaram-no porque produziram serviços que centenas de milhões de europeus escolheram livremente utilizar, todos os dias, durante duas décadas. Chamar a isto oligarquia é inverter o significado da palavra. Oligarquia é poder não eleito que se impõe contra a vontade dos cidadãos. O que ela descreve é o oposto, é o mercado livre a funcionar com utilizadores a decidir.
A verdadeira concentração de poder não eleito na Europa de hoje chama-se Comissão Europeia. É lá que se legisla sem mandato direto, é lá que se decide o que os cidadãos podem ler online através do Digital Services Act, é lá que se define quais discursos são desinformação e quais são informação. Se há uma oligarquia a censurar jornalismo democrático, ela não fala inglês com sotaque californiano, fala francês e alemão e tem sede em Berlaymont.
Francesca Bria queixa-se de que 80% da tecnologia digital usada na Europa é importada. É verdade. Mas porquê? Não foi a Google que proibiu a Europa de inovar. Foram décadas de regulação asfixiante, cargas fiscais punitivas, mercados fragmentados em 27 jurisdições e uma cultura política que trata o empreendedor com a desconfiança que reserva ao especulador. A Europa não tem gigantes tecnológicos porque construiu metodicamente um ambiente onde nenhum gigante pode nascer. A solução proposta por Bria, mais regulação europeia, mais soberania estatal sobre a infraestrutura, é exatamente a doença apresentada como cura.
A passagem sobre Elon Musk é particularmente reveladora. Elon Musk é acusado de interferir nas democracias europeias através das plataformas digitais. Elon Musk permitiu que as vozes conservadoras voltassem a circular no X depois de anos de censura sistemática imposta pela antiga gestão do Twitter, que coordenava ativamente com governos e agências para silenciar opositores políticos. Quando a censura beneficiava a esquerda progressista, era moderação responsável. Agora que o terreno digital deixou de ser inclinado num só sentido, passou a ser interferência oligárquica. O incómodo é com o facto de uma plataforma ter deixado de servir a sua agenda.
O argumento sobre o jornalismo merece igual escrutínio. Francesca Bria pergunta quem vai pagar aos jornalistas. A pergunta certa é outra, porque é que os cidadãos europeus deixaram de pagar pelo jornalismo legacy? A resposta está nos próprios meios que ela diz querer proteger. Décadas de ativismo travestido de informação, de alinhamento ideológico com o establishment de Bruxelas, de tratamento condescendente de eleitorados conservadores e populares, ergueram um muro de desconfiança entre os grandes media e metade da população. O público não fugiu do jornalismo, fugiu de redações que confundiram militância com profissão. A inteligência artificial e as redes sociais não mataram o jornalismo, expuseram a sua crise de credibilidade.
Sobre as deepfakes e a desinformação, vale a pena lembrar que os maiores episódios documentados de manipulação informativa na última década não vieram de adolescentes com geradores de imagem. Vieram de operações coordenadas entre governos, agências de fact checking financiadas por fundações ideológicas e plataformas que decidiram unilateralmente o que era verdade. A história do laptop de Hunter Biden, classificada como desinformação russa por dezenas de antigos responsáveis dos serviços secretos e abafada pelo Twitter pré Musk em plena campanha presidencial, é o exemplo paradigmático. Quem combateu a desinformação foi a imprensa alternativa, não os guardiões institucionais.
Quando Francesca Bria conclui que a Europa é o único continente que pode salvar a ordem democrática, expressa a vaidade civilizacional típica desta classe política. A mesma Europa que tem democracias com taxas de participação em queda livre, partidos tradicionais a colapsar, governos que ignoram referendos quando o resultado não lhes agrada, e instituições comunitárias dirigidas por figuras que ninguém elegeu diretamente. Esta Europa quer ensinar o mundo a democracia. É preciso uma dose considerável de provincianismo bruxelense para acreditar nisto.
Há, ainda assim, um ponto em que ela tem razão parcial. A dependência tecnológica é um problema estratégico real e a Europa precisa de capacidade industrial própria. O caminho é desregular, baixar impostos, unificar o mercado de capitais, parar de perseguir judicialmente cada empresa que cresce e devolver aos europeus a liberdade económica que permitiu, no século passado, construir aquilo que hoje se dilapida.
A soberania que faz falta à Europa é apenas política. É a soberania das nações sobre as suas fronteiras, sobre as suas leis, sobre as suas escolhas civilizacionais. Enquanto Bruxelas continuar a confundir soberania com centralismo regulatório, a Europa continuará a perder terreno. E figuras como Francesca Bria continuarão a viajar pelos congressos a explicar que a culpa é da América.



