Há quatro movimentos concretos a reter na escalada militar norte-coreana desta semana, e todos apontam na mesma direcção: Pyongyang está a transformar a ameaça retórica em capacidade instalada, enquanto o multilateralismo observa em silêncio.
1. Artilharia de 60 km que aponta a Seul
Kim Jong-un visitou pessoalmente uma fábrica de armamento para inspeccionar a produção de obuses autopropulsados de 155 mm com alcance superior a 60 quilómetros. Três batalhões completos destes sistemas serão destacados para a unidade de artilharia de longo alcance na fronteira sul ainda este ano. Seul, capital com 10 milhões de habitantes, fica a 40 a 50 quilómetros dessa fronteira. A aritmética é simples e brutal.
2. O destróier Choe Hyon e a viragem naval
Na mesma semana, Kim embarcou no destróier Choe Hyon para acompanhar testes de manobrabilidade no Mar Amarelo. O navio, o mais avançado da Marinha Popular da Coreia, com deslocamento estimado em 5000 toneladas, está equipado com radar de matriz faseada, sistema de lançamento vertical e capacidade de operar mísseis de cruzeiro e armamentos antinavio. A entrega à Marinha está prevista para meados de Junho. Para uma força naval historicamente costeira, é uma mudança qualitativa com implicações directas para a Coreia do Sul, o Japão e os Estados Unidos.
3. A constituição que apagou a reunificação
O contexto político é inseparável do militar. A nova constituição norte-coreana, revista por ordem de Kim e adoptada na sessão de Março da Assembleia Popular Suprema, eliminou todas as referências à reunificação pacífica com a Coreia do Sul. Foram suprimidas as expressões «reunificação pacífica», «grande unidade nacional» e o compromisso de «lutar para alcançar a reunificação nacional». Seul passa a ser designada formalmente como o «Estado mais hostil» do regime. Dois Estados na Península Coreana, esta é agora a doutrina oficial de Pyongyang, gravada em lei fundamental.
4. O Conselho de Segurança que não existe para Pyongyang
As resoluções da ONU proíbem os lançamentos de mísseis balísticos norte-coreanos, e Pyongyang lança-os na mesma. A artilharia convencional, como os obuses agora anunciados, nem sequer está formalmente abrangida por essas restrições. O regime aprendeu a escalar dentro dos buracos do sistema multilateral, usando cada lacuna como corredor de armamento. O Conselho de Segurança, com a Rússia e a China como membros permanentes, está estruturalmente impedido de responder.
A próxima data a marcar no calendário é meados de Junho, quando o Choe Hyon deverá ser formalmente comissionado pela Marinha norte-coreana, o momento em que a escalada deixa de ser anúncio e passa a ser força operacional no terreno.


