Fundação Gates sai por completo da Microsoft em 25 anos de ligação

A Fundação Gates vendeu as suas últimas 7,7 milhões de acções da Microsoft, no valor de cerca de 3,2 mil milhões de dólares, encerrando 25 anos de ligação accionista à empresa.

Fundação Gates vende 3,2 mil milhões em Microsoft

Fundação Gates vende 3,2 mil milhões em Microsoft

A Bill & Melinda Gates Foundation Trust vendeu as suas últimas 7,7 milhões de acções da Microsoft no primeiro trimestre de 2026, num desinvestimento avaliado em cerca de 3,2 mil milhões de dólares aos preços actuais, segundo a comunicação 13F entregue à SEC a 15 de Maio. A operação encerra uma relação financeira com a empresa que Gates co-fundou que durava desde a criação da fundação, em 2000 — e que chegou a representar perto de 34% da carteira do Trust no final de 2023, antes de o desinvestimento sistemático começar.

A lógica por detrás da saída: 200 mil milhões a distribuir até 2045

A venda não reflecte qualquer desconfiança na Microsoft. Em Maio de 2025, Bill Gates anunciou que a fundação encerrará as suas operações em 2045, comprometendo-se a distribuir cerca de 200 mil milhões de dólares em doações filantrópicas nas duas décadas seguintes — quase a totalidade da sua fortuna. Uma organização com esse calendário não tem alternativa: tem de converter posições accionistas concentradas em capital líquido, diversificado e adequado ao perfil de saídas anuais que terá de sustentar.

O processo de desinvestimento começou no último trimestre de 2023, quando o Trust ainda detinha mais de 38 milhões de acções, com a Microsoft a representar quase um terço da carteira. As reduções foram-se sucedendo de forma metódica ao longo de 2024, mas a aceleração decisiva ocorreu no terceiro trimestre de 2025: numa única operação, foram alienados perto de 65% da posição remanescente — cerca de 17 milhões de acções —, fazendo a Microsoft cair da primeira para a quarta maior posição da carteira. No final de 2025 restavam apenas as 7,7 milhões de acções agora liquidadas.

Após esta venda, o portefólio reportado no 13F do Trust passou a valer cerca de 31,7 mil milhões de dólares, e a Berkshire Hathaway — alimentada pelas doações regulares de Warren Buffett — passou a ser a maior posição, seguida pela Waste Management e pela Canadian National Railway. Recorde-se que Bill Gates, a título pessoal, mantém ainda cerca de 103 milhões de acções da Microsoft, avaliadas em aproximadamente 43 mil milhões de dólares.

Ackman entra onde Gates sai — e a divergência diz tudo sobre a Microsoft

No mesmo dia em que a saída da fundação foi divulgada, o gestor de fundos Bill Ackman, através da Pershing Square Capital Management, revelou uma nova posição de cerca de 5,65 milhões de acções da Microsoft, avaliada em aproximadamente 2,3 mil milhões de dólares ao preço de fecho de 15 de Maio. Ackman explicou que começou a construir a posição em Fevereiro, depois da quebra da Microsoft na sequência dos resultados do segundo trimestre fiscal, conseguindo entrar a um múltiplo de 21 vezes lucros futuros — em linha com o mercado e bem abaixo da média histórica recente da empresa. Financiou a aquisição com a alienação da sua posição na Alphabet e classificou a Microsoft como «posição central» da Pershing Square.

A divergência entre os dois movimentos é instrutiva: a fundação vende por necessidade operacional, Ackman compra por convicção. E a Microsoft, no meio, enfrenta dois receios principais do mercado.

O primeiro é a adopção do Copilot. Em Janeiro, a empresa revelou pela primeira vez o número de assinaturas pagas do Microsoft 365 Copilot: 15 milhões de assentos, entre os mais de 450 milhões de assentos comerciais do Microsoft 365 — apenas 3,3% de penetração após dois anos de comercialização. Três meses depois, no relatório do terceiro trimestre fiscal, o número subiu para mais de 20 milhões, mas as métricas de utilização efectiva continuam preocupantes: estudos independentes apontam que apenas cerca de 36% dos colaboradores com licença atribuída usam efectivamente a ferramenta.

O segundo é o capex. A Microsoft planeia gastar cerca de 190 mil milhões de dólares em infra-estrutura ao longo do ano calendário de 2026, um número que provocou apreensão entre analistas sobre o impacto nas margens. Ackman considera esse investimento «capex de crescimento que deverá gerar receita futura», não uma ameaça estrutural.

Os números do Azure dão-lhe razão. No trimestre encerrado a 31 de Março, o Azure e outros serviços cloud cresceram 39% em moeda constante, com a empresa a guiar para 39-40% no trimestre seguinte. O negócio de IA atingiu uma taxa anualizada de receita de 37 mil milhões de dólares, um aumento de 123% face ao período homólogo. As obrigações de desempenho contratualizadas (RPO) chegaram aos 627 mil milhões de dólares — receita já contratada mas ainda por reconhecer.

O que ler nestes movimentos

A saída da Gates Foundation não é, portanto, um sinal sobre a Microsoft. É um sinal sobre a Gates Foundation. E é também, indirectamente, um sinal sobre como a maior parte das grandes fortunas filantrópicas dos Estados Unidos está a ser desenhada para se autodissolver em vez de durar para sempre — um modelo de capital com prazo de validade, ao serviço de uma agenda definida em vida pelo fundador.

A entrada de Ackman, por seu turno, é um sinal sobre a Microsoft: depois de uma queda de cerca de 26% face ao máximo histórico de Julho de 2025, há gestores experientes a considerar que o castigo bolsista superou o problema real. A acção transaccionava esta semana em torno dos 422 dólares, num múltiplo histórico relativamente comprimido para a empresa, com Azure a acelerar, IA a duplicar e Copilot finalmente a sair da fase de evangelização para um caminho — lento, mas mensurável — de adopção.

Quem tem razão, descobre-se nos próximos quatro trimestres. Mas há aqui uma lição que ultrapassa o caso concreto da Microsoft: as decisões dos investidores institucionais raramente são o que parecem à primeira vista. Vender pode não ser perder a fé. Comprar pode não ser sentir entusiasmo. O que importa é o mandato de cada agente — e a Gates Foundation tem hoje um mandato muito diferente do que tinha em 2000.

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