Era quarta-feira quando militares do Núcleo de Investigação Criminal de Caldas da Rainha chegaram a Vale Covo, no concelho do Bombarral. Dentro de um armazém, computadores especializados trabalhavam em silêncio, a resolver cálculos matemáticos complexos para gerar moeda digital. O detalhe que faltava na equação: ninguém pagava a electricidade que os alimentava.
A operação e o que a GNR encontrou
Um homem de 27 anos foi detido em flagrante por suspeita de furto de energia eléctrica da rede nacional. A investigação, conduzida com apoio técnico da E-Redes, identificou uma ligação ilegal de elevada potência à rede, destinada exclusivamente a abastecer a operação clandestina. No armazém de Vale Covo, toda a infraestrutura industrial de mineração de criptomoedas foi desmantelada.
A detenção desta semana não foi um caso isolado. Quatro diligências de reconstituição de facto revelaram operações semelhantes ocorridas em novembro de 2025 nos concelhos do Bombarral, Óbidos e Lourinhã — com prejuízos estimados em cerca de 300 mil euros em furto de energia eléctrica. O detido foi constituído arguido e o caso remetido aos tribunais de Caldas da Rainha e da Lourinhã.
O custo que fica para trás
A mineração de criptomoedas exige um consumo eléctrico extraordinário. É precisamente esse custo que torna a ligação ilegal à rede tão atractiva para quem quer lucrar sem pagar. O problema é que alguém paga sempre — a distribuidora, os restantes consumidores, o sistema. Trezentos mil euros em energia furtada não desaparecem: redistribuem-se, em tarifas e ineficiências, por quem cumpre as regras.
O caso levanta também questões sobre a capacidade de detecção precoce de ligações ilegais de elevada intencidade numa rede de distribuição que serve milhões de portugueses. A E-Redes participou tecnicamente na operação — mas a investigação durou meses e abrangeu três concelhos antes de chegar à detenção.
O arguido aguarda agora decisão judicial nos tribunais de Caldas da Rainha e da Lourinhã, onde o processo foi formalmente comunicado.



