Os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) identificaram casos de colonização por Enterobacterales Produtores de Carbapenemases (EPC), uma família de bactérias multirresistentes associada aos cuidados de saúde. A Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra reagiu com a criação de uma enfermaria de contingência dedicada, destinada a isolar os doentes EPC positivos e a conter a propagação dentro do hospital. A situação foi tornada pública através de um comunicado do Conselho de Administração, que afirma estar a acompanhar o caso «em permanência» e a registar uma evolução positiva.
A resposta hospitalar
Segundo o comunicado oficial enviado aos órgãos de comunicação social, foram activadas várias linhas de actuação:
- Criação de uma enfermaria de contingência exclusiva para doentes EPC positivos, com organização de coortes nos serviços com maior pressão de colonização
- Reforço da higiene ambiental sob supervisão do Serviço de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistências aos Antimicrobianos (SPCIRA)
- Procedimento padronizado de higiene ambiental adicional aplicado às áreas clínicas
- Aquisição de material e equipamento suplementar para limpeza e desinfeção
- Reforço das horas da equipa assistencial, com especial atenção à formação e ao controlo das práticas de higiene
- Reuniões periódicas com as lideranças clínicas das unidades de internamento
A ULS de Coimbra, liderada por Francisco Maio Matos, sublinha que «não existe evidência de risco para a comunidade em geral», circunscrevendo o problema ao ambiente hospitalar.
O que está em causa
As Enterobacterales Produtores de Carbapenemases são um dos grupos de bactérias mais difíceis de tratar na medicina moderna. Resistem aos carbapenemes, uma das últimas linhas de antibióticos disponíveis para infeções graves. É preciso distinguir dois conceitos: estar colonizado significa que a bactéria está presente no organismo sem causar doença; estar infetado significa que a bactéria está activamente a causar uma infeção. Os casos identificados em Coimbra são, segundo a ULS, de colonização, mas é precisamente para impedir a transição da colonização para a infeção, e para travar a transmissão a outros doentes internados, que o isolamento se torna obrigatório.
A circulação destas bactérias tem vindo a aumentar em vários países europeus. O então Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra registou em 2016 três mortes associadas a uma variante desta família, a Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemases (KPC), o que ajuda a explicar a vigilância apertada que hoje se mantém na instituição.
O problema estrutural por trás do caso
As infeções associadas aos cuidados de saúde não são um problema novo nem exclusivo de Coimbra. São, pelo contrário, um indicador estrutural da capacidade dos sistemas hospitalares em manter padrões básicos de prevenção. Sobrelotação, rotatividade acelerada de doentes, falta crónica de enfermeiros e auxiliares, instalações envelhecidas, são todas condições que favorecem a propagação destes agentes patogénicos.
O caso dos HUC ilustra, mais uma vez, a tensão entre o discurso oficial tranquilizador e a realidade quotidiana de hospitais públicos sob pressão. A resposta da ULS de Coimbra parece ter sido tecnicamente adequada e atempada, e isso deve ser reconhecido. Mas a frequência com que estes episódios surgem nos hospitais portugueses, de Penafiel a Coimbra, obriga a uma pergunta mais incómoda: estamos a tratar destes surtos como excepções a gerir, ou como sintomas de um sistema que precisa de reforma estrutural?
A evolução do caso nos HUC será monitorizada nas próximas semanas através das auditorias diárias anunciadas. O indicador central a acompanhar é a redução continuada do número de doentes colonizados, único critério que permitirá avaliar se o plano de contingência está a produzir o efeito esperado.