Há quatro factos a considerar na demissão de Ruslan Kravchenko como procurador-geral da Ucrânia: a escala do esquema, a reacção do próprio, o padrão de escândalos no poder e a simultaneidade com a ofensiva russa.
1. Rede de branqueamento no gabinete
A agência anticorrupção NABU e a procuradoria especializada SAP anunciaram o desmantelamento de uma rede de branqueamento «dirigida por um responsável do gabinete do procurador-geral». Buscas no fim de semana no gabinete de Kravchenko ligaram o esquema a centros de atendimento fraudulentos que legalizavam fortunas de milhões. Subornos financiavam imóveis, joias e outros bens de valor. A NABU mostrou um cofre com maços de dólares e identificou cinco membros da rede, sem os nomear.
2. Demissão e recusa das acusações
A 7 de setembro, Kravchenko anunciou: «Renunciei ao meu cargo de procurador-geral». Afirmou não querer que a Procuradoria-Geral sirva de «instrumento de confronto político» e manteve a posição inalterada. No domingo tinha classificado as acusações de «completamente infundadas», dizendo que as despesas seguiam a lei e os rendimentos declarados.
3. Indústria de fraude telefónica
Segundo a Global Initiative Against Transnational Organized Crime, o sector dos call centers fraudulentos emprega quase 60.000 pessoas na Ucrânia — cerca de dois terços dos efectivos bancários — e pode gerar até mil milhões de dólares (860 milhões de euros) por mês. A corrupção permanece problema recorrente desde a invasão de 2022, com escândalos no exército e no aparelho de Estado.
4. Padrão no círculo de Zelensky
Em agosto, o presidente Volodymyr Zelensky exonerou Iryna Mudra, adjunta do chefe de gabinete, por branqueamento. O braço-direito Andrii Yermak demitiu-se em novembro de 2025 por desvio de fundos ligado a Timur Mindich, empresário próximo do presidente, agora em fuga. Enquanto isto, a Rússia retomou ataques a Kiev após pausa de três dias durante visitas de enviados norte-americanos: pelo menos duas mortes, feridos e edifícios danificados. A Ucrânia atingiu infraestruturas petrolíferas russas; a energia externa em Zaporizhzhia foi restabelecida.
Quem financia a guerra e quem lucra com redes paralelas são perguntas que o próximo passo da NABU e da SAP terá de responder com nomes e processos concretos, sob pena de a segunda frente — a da corrupção — corroer o apoio externo que Kiev ainda reclama.