Orbán mobiliza apoiantes contra nova maioria húngara

O ex-primeiro-ministro Viktor Orbán convocou uma manifestação em Budapeste para quinta-feira, invocando a defesa do Estado de direito contra as reformas constitucionais do governo de Magyar Péter.

Orbán mobiliza apoiantes contra nova maioria húngara

Orbán mobiliza apoiantes contra nova maioria húngara

Orbán convoca os húngaros para as ruas contra a «tirania» de Magyar Péter

Budapeste prepara-se para uma quinta-feira de confronto político. Viktor Orbán convocou os seus apoiantes para as 18h00, em frente ao Palácio Sándor, residência oficial do Presidente da República, num protesto contra a 17.ª modificação à Lei Fundamental que o governo de Magyar Péter quer aprovar por procedimento de urgência, incluindo a remoção imediata do Chefe de Estado, Sulyok Tamás.

O ex-primeiro-ministro húngaro apelou à mobilização em nome da defesa do Estado de direito. «Convidamos todos os húngaros que pensam com responsabilidade a estarem na quinta-feira, às 18h00, em frente ao Palácio Sándor, para que juntos, pacificamente, levantemos a voz contra a tirania», escreveu Orbán nas redes sociais, avisando que «o que hoje acontece ao Presidente da República pode amanhã acontecer a qualquer um». A manifestação, organizada conjuntamente pelo Fidesz e pelo KDNP sob o lema «Stop Önkény» («Basta de Arbitrariedade»), conta já com a adesão do movimento cívico CÖF, organizador das históricas Marchas da Paz. Não está ainda confirmado se o próprio Orbán discursará no protesto.

A ruptura constitucional que Magyar chama de «fim do teatro de marionetas»

Magyar Péter, que se encontra na Turquia para a cimeira da NATO em Ancara, foi directo na resposta aos críticos: «Alguém acreditava mesmo que, se o Tisza obtivesse a autorização de dois terços, tudo continuaria como dantes e as marionetas ficariam? Pois não.» Nos comentários à publicação, acrescentou que «o teatro de marionetas acabou».

O pacote constitucional, apresentado pelo primeiro-ministro ao Parlamento no sábado anterior, contém doze pontos centrais. Entre eles figuram a cessação do mandato do Presidente Sulyok Tamás, um limite de 12 anos (ou três legislaturas) para os deputados, a introdução de um limite de idade de 70 anos para os juízes do Tribunal Constitucional, a redução do universo das leis orgânicas de dois terços e a criação de um Instituto Nacional de Recuperação e Protecção do Património. O afastamento do Chefe de Estado é resolvido numa única disposição transitória: o mandato do Presidente em funções cessa no dia seguinte à entrada em vigor da modificação, sem processo de destituição nem fundamentação individual. O debate jurídico e político sobre a legitimidade deste mecanismo decorre publicamente há semanas na Hungria.

O que Orbán e o Fidesz dizem estar em risco

Do lado da oposição, a narrativa é a de que a nova maioria está a desmantelar garantias constitucionais fundamentais. Gulyás Gergely, líder da bancada do Fidesz, acusou o Tisza de estar a «decapitar o Tribunal Constitucional» e de eliminar as regras de maioria qualificada que protegem as terras agrícolas, tornando-as alteráveis por maioria simples. No debate parlamentar de terça-feira, Gulyás avisou que a queda dessa protecção pode abrir caminho à compra de terras por estrangeiros. Rétvári Bence, líder da bancada do KDNP, denunciou por seu lado uma «legislação personalizada e retroactiva, sem paralelo na Europa», apontando à «lex Orbán» e à «lex Sulyok» como o topo de um processo de vingança política que, diz, «escorre até aos directores de escola e aos funcionários públicos».

Na manifestação de quinta-feira está previsto que discurse o ex-Presidente da República János Áder, antigo aliado de Orbán, conferindo ao protesto um peso institucional que vai além da base habitual do Fidesz.

Sulyok recusa demitir-se e a Comissão de Veneza fica à porta

O visado principal da modificação não cedeu. Numa entrevista ao semanário conservador polaco Do Rzeczy, Sulyok Tamás afirmou que não tem razão para se demitir e que não existe fundamento jurídico-constitucional para o seu afastamento. O Presidente sublinhou que a norma, ao referir-se ao «actual Presidente da República» e não ao cargo em abstracto, só pode ser lida como uma lei feita à medida de uma pessoa, o que considera incompatível com o Estado de direito. Lembrou ainda que nunca foi membro de partido algum e que, durante os governos do Fidesz, chegou a exercer o direito de veto.

Há um detalhe que a maioria governamental prefere não sublinhar. Sulyok recorreu em 29 de Maio à Comissão de Veneza, o órgão consultivo do Conselho da Europa para matérias constitucionais, cuja delegação esteve em Budapeste na semana passada a reunir com o governo e com o Presidente. Apesar disso, o executivo de Magyar decidiu tramitar a modificação por procedimento de urgência, sem se comprometer a aguardar pelo parecer da Comissão. Para um governo que chegou ao poder a prometer restaurar o Estado de direito, avançar sobre o Chefe de Estado antes de ouvir o principal órgão europeu de fiscalização constitucional é, no mínimo, uma ironia que não passará despercebida na quinta-feira à noite, em frente ao Palácio Sándor.

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