RTP cortou crítica ao Governo e versões contradizem-se

A direção da RTP retirou um vox-pop crítico ao Governo de uma peça sobre inflação. A jornalista autora diz que só soube do corte mais de 24 horas depois.

RTP cortou crítica ao Governo e versões contradizem-se

A direção de informação da RTP retirou, sem aviso prévio à jornalista autora, um excerto de uma reportagem sobre inflação emitida no Telejornal de 30 de abril, no qual uma idosa no Mercado de Benfica afirmava: «Os que estão no Governo, é tudo para o saco deles e os pobres cada vez mais pobres.» A mesma peça foi depois transmitida na edição da RTP Notícias das 21h00 já sem esse depoimento. O Conselho de Redação, em comunicado datado de 9 de maio, pediu esclarecimentos de urgência à direção e à jornalista. As versões oficiais e a da repórter são diametralmente opostas.

A versão da direção e o que a jornalista contraria

O diretor de informação Vítor Gonçalves justificou o corte com critérios editoriais. Segundo a sua resposta ao Conselho de Redação, a frase retirada não acrescentava matéria relevante ao tema da inflação e poderia «amplificar uma visão populista e desinformada» sem qualquer enquadramento factual. A direção sustenta que, enquanto operador de serviço público, a RTP deve evitar difundir afirmações que reforcem narrativas simplistas ou injustas sobre instituições democráticas, e garante que a decisão foi comunicada à jornalista responsável pela peça, à editora e à coordenação do Telejornal.

A repórter Soraia Ramos contradiz esta versão ponto por ponto. Afirma não saber quem cortou a peça nem quem deu a ordem, e que só teve conhecimento do corte mais de 24 horas depois, quando lhe chamaram a atenção para o que tinha ido para o ar. Acrescenta que, logo após a emissão original no Telejornal das 20h00, recebeu um telefonema da subdiretora Luísa Bastos, descrita como «muito incomodada» com a inclusão do depoimento, e mais tarde uma mensagem do próprio diretor de informação no mesmo sentido.

A contradição que continua por dissolver

A questão central permanece em aberto. Se a alteração foi uma decisão editorial regular e comunicada, porque é que a jornalista garante não ter sido informada previamente, e porque é que recebeu contactos da subdiretora e do diretor de informação a manifestar desconforto com o depoimento logo após a primeira emissão? As duas versões não se conciliam.

A RTP é financiada pelo contribuinte português e tem estatuto de serviço público precisamente para garantir pluralismo e independência face ao poder político. Filtrar a voz de uma cidadã que critica o Governo, seja por razões editoriais genuínas ou por pressão hierárquica, levanta dúvidas que a direção, até agora, não conseguiu dissipar com coerência.

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