Era uma manhã de abril de 2025 quando as primeiras manchetes europeias anunciaram o fim do mundo comercial. Redacções em Lisboa, Paris e Berlim alinharam os mesmos adjectivos, "guerra comercial", "colapso", "recessão iminente", com a certeza de quem já sabe o fim da história antes de ela acontecer. Um ano depois, os números teimam em contar outra.
O que os dados dizem, e o que não se diz
A economia americana entrou em 2026 sem a recessão prometida. O PIB continuou a crescer, com previsões revistas em alta para perto dos 2%, os salários reais subiram acima da inflação ao longo do ano, e o consumo privado manteve-se. As tarifas impostas pela administração Trump sobre importações europeias e asiáticas geraram fricção real, isso é inegável. Mas o cenário de implosão civilizacional, repetido como mantra nas análises europeias, não se materializou.
Os custos existem e são mensuráveis. O Yale Budget Lab estima que as tarifas custaram em média cerca de 1.800 dólares por agregado familiar americano em 2025, com cerca de metade desse custo a ser repassado ao consumidor segundo a Goldman Sachs. A inflação fechou o ano em 2,7%, acima do alvo de 2% da Reserva Federal, e o emprego industrial recuou ao longo de 2025, com o sector manufactureiro a perder cerca de 88 mil postos de trabalho durante o primeiro ano da nova administração. O Supremo Tribunal acabou por derrubar parte das tarifas impostas ao abrigo do IEEPA no início de 2026, embora a Casa Branca tenha imposto de imediato novas tarifas globais de 15%.
Estes são os factos desconfortáveis para quem defendeu o experimento tarifário. Mas o que raramente se lê nas análises portuguesas é o outro lado da equação. A economia que ia colapsar não colapsou. A recessão prevista não chegou. As receitas aduaneiras quase triplicaram em relação a 2024, contribuindo para reduzir o défice federal. O dólar manteve-se forte. E o consumidor americano, embora mais pobre na margem, continuou a consumir.
A Europa, por sua vez, e Portugal em particular, exporta para os EUA bens de valor acrescentado, vinhos, calçado, componentes industriais, farmacêuticos, que enfrentam agora barreiras reais. O impacto existe e merece ser tratado com seriedade. Mas apresentá-lo como catástrofe ignorando que a economia que supostamente ia implodir continua a crescer é framing, não análise.
O que Portugal e a UE podem aprender
A UE respondeu com a sua resposta habitual, reuniões, comunicados, ameaças de retaliação calibradas para não irritar demasiado Washington. Portugal, sem política comercial própria, cedida a Bruxelas há décadas, limitou-se a aguardar. É aqui que a lição mais incómoda se instala.
Os EUA aplicaram proteccionismo estratégico em sectores que consideram críticos, semicondutores, aço, energia. O custo interno foi real, e há economistas sérios, do Cato Institute ao Brookings, que documentam como a incerteza tarifária travou o investimento e o emprego industrial que as tarifas pretendiam proteger. A eficácia da estratégia é discutível e provavelmente foi sobrevalorizada pelos seus defensores. Mas a ideia oposta, de que um país soberano não pode sequer tentar defender a sua base industrial com instrumentos tarifários, ideia que a ortodoxia europeia repete como dogma, também não se sustenta. Os EUA fizeram-no, encaixaram custos significativos, e não colapsaram. A Europa não fez nada e continua refém das mesmas dependências de sempre.
A Europa construiu décadas de dependência em cadeias de abastecimento asiáticas em nome da eficiência. Quando essas cadeias partiram, primeiro com a pandemia e depois com a guerra na Ucrânia, a teoria mostrou as suas costuras. A resposta de Bruxelas, mais regulação, mais comunicados e zero capacidade industrial recuperada, é o pior dos dois mundos. Não temos a soberania que os americanos exercem nem temos os benefícios da abertura que os globalistas prometeram.
A lição não é que o proteccionismo americano funcionou. É que a Europa não tem sequer a coragem de discutir a sua própria estratégia. E enquanto Washington testa, falha, ajusta e age, Bruxelas reúne-se outra vez para emitir mais um comunicado.



