Wilson retraduz Odisseia e ataca filme de Nolan

A classicista Emily Wilson anuncia uma retradução completa da Odisseia e critica o filme de Nolan por escrita «abismal» e ausência de cenas de sexo.

Wilson retraduz Odisseia e ataca filme de Nolan

Emily Wilson, a primeira mulher a traduzir a Odisseia de Homero para inglês, anuncia uma retradução completa do poema épico menos de uma década após a versão de 2017 que inspirou a adaptação cinematográfica de Christopher Nolan. A decisão coincide com a sua crítica dura ao filme, que acusou de escrita «abismal» e de falhar o que torna o poema grande.

Porque Wilson abandona as regras da versão de 2017?

A tradução de 2017, em verso e com o mesmo número de linhas do original grego, foi bestseller e elogiava-se pela acessibilidade. Agora, Wilson declara que se trata de uma retradução total, não de uma revisão. O método aproxima-se do da sua Ilíada de 2023: mais linhas do que o original, palavras mais longas, ritmo variado e repetição de frases. Afirmou estar a meio do trabalho e que vai «quadruplicar» o número de notas finais porque as considera «divertidas de escrever». A escolha de aliviar as restrições formais que ela própria impôs abre espaço a mais voz interpretativa do tradutor sobre o texto canónico.

O que Wilson criticou no filme de Nolan?

Nolan citou a abertura de Wilson — «Tell me about a complicated man» — como influência. O filme estreou em julho, arrecadou 264 milhões de dólares no fim de semana de abertura e fez as vendas impressas do poema no Reino Unido subirem 1.400% nas quatro semanas até 25 de julho face ao período homólogo de 2025. Em crítica publicada, Wilson escreveu que a Odisseia de Nolan «carece de muitos dos elementos que tornam o poema grande», que «a escrita é abismal», que nenhuma personagem tem motivação convincente, que não há cenas de sexo e que toda a comida «parece horrível». Acrescentou que se envergonharia de ter escrito qualquer parte do guião. A reação incluiu acusações de superioridade altiva. Wilson indicou que a decisão de retraduzir é anterior à polémica e que «provavelmente» manterá a linha de abertura.

Que leitura do clássico fica em jogo?

Wilson reconheceu que a primeira versão recorria em excesso à palavra «slave». A nova abordagem, com mais linhas e notas, multiplica o poder de enquadrar escravatura, guerra, mulheres e motivação moral no texto homérico. Quando a tradutora se torna também crítica pública da adaptação que popularizou a sua própria obra, o cânone deixa de ser apenas transmitido: é reescrito sob o olhar contemporâneo de quem define o que conta como «elementos que tornam o poema grande». O público de massas descobriu Homero pelo ecrã; a academia responde com mais aparato interpretativo.

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