Há três dimensões a considerar na mensagem que a Igreja Católica em Portugal deixou para o Dia dos Irmãos, assinalado este domingo, 31 de maio, uma data instituída pela Confederação Europeia das Famílias Numerosas (ELFAC) que, este ano, ganha um enquadramento espiritual e civilizacional mais denso do que o habitual.
1. A família como primeiro campo de batalha pela paz
A Comissão Episcopal do Laicado e Família (CELF), da Conferência Episcopal Portuguesa, publicou uma mensagem que não faz rodeios. Em muitos lares, alerta o documento, respira-se a divisão, a discórdia, as desavenças, as separações e a violência física e moral. O diagnóstico é claro. A família, que deveria ser o primeiro lugar onde a paz resplandecesse, «infelizmente, não está a acontecer». A fraternidade não é apresentada como sentimento opcional, mas como o caminho prático e urgente para que a paz não fique reduzida a mera ausência em variadíssimos lugares.
2. São Francisco de Assis como referência do ano
A mensagem de 2026 associa-se ao VIII centenário da morte de São Francisco de Assis, que se assinala este ano com um Ano Jubilar Franciscano, proclamado por Leão XIV e vivido entre 10 de janeiro de 2026 e 10 de janeiro de 2027. A CELF recorda a carta que o Papa Leão XIV dirigiu à Família Franciscana, na qual deseja que «a mensagem de paz possa encontrar um eco profundo no hoje da Igreja e da sociedade», uma paz que descreve como «dom activo a ser acolhido e vivido todos os dias». É a própria mensagem da CELF que define São Francisco como «o verdadeiro protagonista da fraternidade universal». A ligação não é decorativa. A fraternidade que Francisco viveu entre todos os seres é proposta como modelo concreto para o interior das famílias portuguesas, onde os laços de sangue existem mas nem sempre bastam.
3. Dois gémeos, dois padres, uma família unida
O testemunho mais concreto desta data vem de Pedro e Afonso Rosa Sousa, gémeos ordenados sacerdotes em 2022, no Mosteiro dos Jerónimos. Pedro é reitor do Seminário de Penafirme. Afonso é pároco da Pontinha, no Patriarcado de Lisboa. Apesar de já não viverem sob o mesmo tecto, falam diariamente por telefone e partilham, no programa ECCLESIA transmitido na RTP2, até as inquietações pastorais. Para Afonso, o irmão é, além de irmão de sangue, irmão no ministério. A família, com mais duas irmãs, Carolina e Teresa, é descrita como um núcleo muito forte, onde se partilha tudo à mesa. Um retrato que contrasta com a fragmentação que a CELF denuncia em tantos outros lares.
Num país onde o número de famílias numerosas encolhe a cada geração e onde a palavra «fraternidade» migrou para o vocabulário político sem raízes afectivas, a Igreja propõe que se comece pelo mais simples e pelo mais difícil. Ligar ao irmão, sentar à mesa, pedir perdão. A próxima oportunidade concreta é o próprio domingo, e não requer qualquer despacho ministerial.