Há quatro factos a considerar na contradição entre o ministro da Educação e o próprio Ministério sobre turmas de 30 alunos e a qualidade do ensino público.
1. A afirmação de Fernando Alexandre
O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, respondeu a jornalistas sobre alunos sem colocação na região de Lisboa redistribuídos por turmas já cheias, muitos em situação de supranumerário. Afirmou que a evidência não coloca em causa a qualidade do ensino e que, até aos 30 alunos, não há evidência científica de prejuízo.
2. O estudo de 2017 do Ministério
Um estudo de 2017, promovido pelo Ministério da Educação sob Tiago Brandão Rodrigues e coordenado por Luís Capucha, conclui o oposto. Os principais estudos de referência apontam que turmas mais pequenas tendem a produzir resultados pedagógicos positivos, sobretudo entre alunos de meios socioeconomicamente mais desfavorecidos. Correlações com dados da OCDE ligam turmas maiores a taxas de repetição mais elevadas, com maior força no 3.º ciclo.
3. Quem está na sala contradiz o ministro
A Federação Nacional de Educação sublinha que a dimensão das turmas conta e muito. Mário Martins, professor de Português do 3.º CEB e do secundário, afirma que turmas maiores prejudicam a qualidade do ensino e que qualquer docente, por experiência, o sabe. Numa oficina de escrita de 90 minutos, apoiar 15 alunos é outra realidade face a classes cheias.
4. Os «invisíveis» e o desgaste docente
Especialistas alertam para o impacto da superlotação: falta de atenção individual aos alunos mais vulneráveis — os «invisíveis» na turma — e burnout extremo entre professores, num contexto de crise de vagas. A dimensão da turma deixa de ser detalhe administrativo e passa a condicionar quem aprende e quem fica para trás.
O próximo indicador a seguir é a colocação efectiva dos alunos em falta na Grande Lisboa e se o Ministério mantém o teto de 30 sem rever a evidência que o próprio produziu.