Uma lancha rápida sem registo encalhada de madrugada na praia de Moledo não é um acidente de turismo náutico: é o sinal visível de que a costa do Minho continua a ser corredor de quem opera à margem da lei e abandona o material quando a operação falha.
O que a Polícia Marítima e a PJ encontraram em Moledo
Por volta da meia-noite, populares alertaram para uma embarcação de alta velocidade encalhada na praia de Moledo, em Caminha. A Polícia Marítima local respondeu; à chegada dos meios, a Polícia Judiciária já estava no local e assumiu a investigação. O capitão do Porto de Caminha, Fernando Pereira, também comandante da Polícia Marítima local, confirmou que a embarcação «não transportava estupefacientes» e que «não tem registo». O material ficou à guarda do comando local da PM, com diligências em curso, em articulação com a Câmara de Caminha, para a retirar do areal.
A classificação oficial é inequívoca: trata-se de lancha «tipicamente, associada ao tráfico de estupefacientes» — a chamada narcolancha. Sem carga a bordo no momento da descoberta, o caso não se fecha em «falso alarme»; fecha-se em meio logístico abandonado e inquérito criminal.
O padrão que já se viu no rio Minho em agosto
Em agosto deste ano, um camião com uma narcolancha no interior foi abandonado no rio Minho. O episódio de Moledo encaixa no mesmo mapa: equipamentos de alta velocidade, ausência de identificação formal, abandono quando a operação se compromete, e resposta reactiva das autoridades depois do alerta de civis.
Quem perde é o contribuinte que financia patrulhas, inquéritos e remoção de destroços; quem ganha, no curto prazo, é a rede que testa rotas e descarta activos sem deixar tripulação apreendida. Fronteira fluvial e costa aberta sem controlo efectivo transformam praias e leitos de rio em parque de estacionamento improvisado do tráfico.
A segurança costeira que só actua depois do encalhe
O alerta às 00:00 por populares e a chegada da PJ já no local mostram capacidade de resposta pontual — e, ao mesmo tempo, a fragilidade de um modelo que depende do acaso e da vigilância informal. Embarcações sem registo associadas a estupefacientes não deveriam chegar ao areal de Moledo para serem inventariadas de madrugada.
A investigação da PJ dirá se há ligação operacional ao abandono de agosto no Minho. Até lá, o próximo passo concreto é a remoção da lancha do areal sob guarda da PM de Caminha e o andamento do inquérito: sem detidos nem droga a bordo, o teste real é se o Estado fecha a rota ou apenas limpa a praia.