Tulsi Gabbard abandona chefia da inteligência dos EUA

A directora de inteligência nacional dos EUA demite-se a 30 de Junho para acompanhar o marido diagnosticado com cancro nos ossos, deixando um cargo central no aparelho de segurança americano.

Tulsi Gabbard abandona chefia da inteligência dos EUA

Tulsi Gabbard, directora de inteligência nacional dos Estados Unidos, anunciou a sua demissão com efeitos a 30 de Junho de 2026, invocando o diagnóstico de uma forma extremamente rara de cancro nos ossos do marido, Abraham Williams. A saída retira do aparelho de segurança americano uma das figuras mais controversas — e mais atacadas pelo establishment — da administração Trump.

Porque é que Gabbard nunca foi perdoada pelo aparelho de Estado?

Gabbard foi confirmada como uma das figuras mais poderosas da comunidade de inteligência americana logo após o regresso de Trump à Casa Branca em 2025, passando a supervisionar as 18 agências de inteligência dos EUA. Mas a sua trajectória foi marcada por tensão permanente com o sistema. Antiga democrata, anti-intervencionista e sem experiência prévia na área da inteligência, foi uma escolha invulgar para o cargo e enfrentou desde o início a desconfiança do aparelho de segurança nacional.

A fractura mais visível ocorreu em torno do conflito com o Irão. Em Março de 2026, perante o Congresso, Gabbard declarou que o Irão não procurava construir uma arma nuclear — ao que o próprio Trump respondeu publicamente: «I don't care what she said. I think they were very close to having a weapon.» Nas semanas seguintes, à medida que a operação militar avançava, Gabbard manteve-se em baixo perfil, evitando endossar publicamente a decisão presidencial. O ODNI esteve ainda envolvido numa disputa pública com a CIA, depois de um membro do grupo especial criado por Gabbard ter testemunhado no Senado que a CIA obstruíra esforços internos do ODNI.

O que revela a saída do seu principal conselheiro antes da dela?

Antes de Gabbard anunciar a sua demissão, o director do Centro Nacional de Contraterrorismo (NCTC) e antigo chefe de gabinete de Gabbard, Joe Kent, já tinha abandonado a administração, precisamente por discordar da guerra com o Irão. Na carta de demissão, dirigida directamente a Trump, Kent escreveu que «o Irão não representava uma ameaça iminente para a nossa nação» e que a guerra fora iniciada «devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby americano». Apelou ao presidente para reverter o rumo.

Gabbard acabou por apoiar publicamente Trump na questão iraniana após a saída de Kent, afirmando que cabe ao presidente determinar o que constitui ameaça iminente. Mas a sequência dos acontecimentos é reveladora: a directora de inteligência nacional esteve crescentemente isolada durante as operações militares mais significativas do mandato.

Quem fica no lugar e o que muda na cadeia de comando?

Aaron Lukas, actual director-adjunto principal do ODNI, assumirá funções como director interino, segundo anúncio do próprio Trump na Truth Social. É a quarta saída de um membro do gabinete desde o início do segundo mandato: a secretária da Segurança Interna Kristi Noem e a procuradora-geral Pam Bondi foram demitidas, enquanto a secretária do Trabalho Lori Chavez-DeRemer apresentou a demissão em Abril.

A rotatividade no núcleo duro da administração levanta questões sobre a estabilidade da equipa de segurança nacional num momento em que os EUA estão envolvidos em operações militares activas, designadamente as acções contra o Irão, e em pressões militares na América Latina contra a Venezuela.

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